
Nós aprendemos até aqui que a primeira função do governo,
como ordenado por Deus, é proteger, sustentar, e preservar a santidade da vida
humana (Rm 13). A segunda missão do Estado é promover a liberdade da igreja, da
religião e da pregação fiel da Palavra de Deus entre os cidadãos. Não cabe ao
Estado governar a igreja, nem regular a liberdade e autonomias espirituais como
vimos no estudo anterior (Am 7:13). Este apoio que o Estado deve oferecer à
igreja é de uma boa legislação, que garanta a livre pregação da Palavra de
Deus, pois a edificação da Igreja se faz por meio da Palavra e pelo poder do Espírito
Santo.
O Estado não tem nenhuma autoridade espiritual sobre a
igreja (Jo 18:36). Existem casos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos de
pessoas que foram disciplinadas pela Igreja e procuraram uma tentativa de
revogar a decisão da igreja apelando para uma corte civil. Infelizmente há
casos em que essa decisão da igreja foi revogada por um magistrado, esta é uma
clara usurpação de função pertencente a igreja pelos magistrados civis. Jesus
deu as chaves do reino para a igreja, não para o Estado (Mt 16:19; Hb 5:4; 2 Cr
26:18). O Estado não tem o direito de interferir nos assuntos da igreja.
Qual seria a missão política da Igreja? Há quase 500 anos
atrás a Reforma Protestante no século 16 surgiu para resgatar as verdades
bíblicas ocultadas pelo Catolicismo Romano. A reforma também tinha aspectos e
dimensões políticas e sociais. A responsabilidade social da igreja envolve:
ministério didático, político e social (O Pensamento Econômico e Social de
Calvino – André Biéler).
Ministério Didático: A
igreja deve instruir o Estado e as pessoas quanto ao ensino bíblico sobre a
administração dos bens outorgados por Deus (Gn 1:28).
Ministério Político: A
igreja deve em primeiro lugar orar pelas autoridades constituídas e quando
necessário advertir as autoridades quando cometer injustiças contra os pobres e
oprimidos. Se a igreja não vigiar o estado ela se torna cúmplice da injustiça
social (1 Tm 2:2).
Ministério social: A
igreja dever dar assistência social para os pobres, órfãos, viúvas e a qualquer
necessitado. A Reforma resgatou a função bíblica do diaconato (Dt 24:19-22; Lv
23:22).
Quando a igreja adverte o Estado contra injustiça da
legalização do aborto e do uso da maconha, a igreja não está tentando
intrometer na esfera do Estado e sim lembrando que esta é sua primeira função,
proteger a vida e não destruí-la. Qualquer governo que legaliza a morte de
bebês ainda não nascidos e o uso legal da maconha tem falhado em seu mandato
divino de governar. No Antigo Testamento, no livro de 1 Reis capítulo 21, vemos
a história do Rei Acabe. Este rei consentiu com a morte de um homem inocente
chamado Nabote por se recusar a vender suas vinhas a ele. Este rei, além de não
cumprir com o seu primeiro dever como governador de preservar a vida, ainda
confiscou uma propriedade privada. O Profeta Elias pronunciou o julgamento de
Deus contra a vida e o reinado deste rei. Assim como o Profeta Elias, a igreja
deve advertir as autoridades quando cometerem injustiças contra os cidadãos
mais fracos.
O Senhor disse através do profeta Zacarias: “Executai juízo
verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimais a
viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu
coração, o mal contra o seu próximo” (Zc 7:9,10).
“A igreja tem seu próprio Rei, sua própria organização.
Possui seus próprios oficiais. Ela tem seus próprios dons para distinguir a
verdade da mentira. Portanto, é seu privilégio, e não o do Estado, determinar
suas próprias características como a Igreja verdadeira e proclamar sua própria
confissão” (Calvinismo – Abraham Kuyper).
“Certamente a igreja de Cristo tem vivido e viverá enquanto
Cristo reinar à destra de seu Pai – pois, pelas mãos de Cristo, ela é
sustentada, por sua proteção ela é armada e pelo seu poder é fortalecida” (João Calvino, Carta ao Rei Francisco da França - 1536).