sábado, 29 de junho de 2019

Como a Disciplina no Lar interfere na Doutrina da Igreja


Creio que um dos maiores problemas enfrentados na igreja de Cristo hoje esteja relacionado a doutrina da igreja. A igreja tem falhado em instruir seus membros biblicamente acerca dos princípios que envolvem as relações interpessoais. Os ministros do evangelho estão ocupados demais com atividades que não são prioridades. Estão servindo mais a estrutura (governo da igreja, estatuto e etc.) do que a Deus (STETZER, 2015, p.122). O ministério da Palavra é o principal meio de graça, e ele não é somente público (pregação), mas é também privado (aconselhamento). A igreja é uma agência educadora, ou seja, uma escola, e seus alunos se matriculam por meio do batismo, e esta educação é vital. Essa falta de interesse pela igreja visível, está afetando diretamente os sacramentos (profanação da Ceia), o aconselhamento bíblico (busca de conhecimento na psicologia secular), o discipulado dos novos convertidos, as obras de misericórdia (diaconato) e principalmente a disciplina bíblica que começa em Mateus 18:15.

Calvino dizia que a segurança da igreja é fundamentada e sustentada sobre a (1) doutrina, a (2) disciplina e os (3) sacramentos (COLIN, 1976, apud POIRIER, 2011, p.218). Todo aquele que está em Cristo é um discípulo de Cristo, e discípulos são simplesmente pessoas que andam sob disciplina. A disciplina visa honrar a Deus, purificar a igreja e restaurar o pecador. A disciplina deve ser aplicada:
  • Com humildade (Mt 18:1-5): o pastor deve agir sem preocupações com o status (posição) ou com sua própria reputação, mas submetendo ao senhorio de Cristo, e reconhecer que não está acima da disciplina dos outros por causa de hierarquia.
  • Com uma visão séria do pecado (Mt 18:5-9): o pecado não reprimido zomba de Deus, transforma a igreja em um celeiro para mais pecados e manda o pecador para o inferno.
  • Com o coração de um pastor (Mt 18:10-14): os pastores tendem a andar em direção às ovelhas saudáveis e não às fracas, em direção às piedosas e não às injustas, ou seja, eles têm a tendência de ir atrás das noventa e nove saudáveis, e não daquela que se perdeu (Ez 34). Ele não só deve buscá-la, mas também restaurá-la, o que envolve trabalho árduo e um fardo pesado.
A liderança da igreja está transferindo para os profissionais da saúde mental, e das áreas jurídica e governamental, aquilo que é sua responsabilidade, reclamando não ter tempo para se envolver com as pessoas, e muito menos com seus problemas. A mediação, e a arbitragem não são privilégios da comunidade jurídica (1 Co 6:1-8). A mediação fala sobre mediador, e o próprio evangelho é a grande metanarrativa do Deus-homem Mediador e de sua mediação redentora. Os pastores são chamados para o ministério da reconciliação e deveriam ser os mais familiarizados e transformados por essa história da mediação (POIRIER, 2011, p.178). 


A infidelidade ou negligência de um pastor é fatal a igreja. Pois assim como a salvação de seu rebanho é a coroa do pastor, assim também todos os que perecem serão requeridos das mãos dos pastores displicentes (CALVINO, 2006, 125).

A igreja hoje está cada vez mais cega aos mandatos de Mateus 18:15-16 (Mediação) e 1 Coríntios 6:1-8 (Arbitragem). Estas passagens nos ensinam que se as partes não conseguirem resolver o conflito por meio da mediação (Mt 18:15-16), devem ter oportunidade de recorrer à arbitragem (1 Co 6:1-8), na própria igreja.

A disciplina bíblica é apresentada como uma disciplina familiar e paternal (Mt 18:15; 1 Tm 3:4; Pv 13:24; 6:23; Sl 94:12; Hb 12:1-14; Ap 3:19), e quando é negligenciada no lar, ela influencia negativamente a doutrina da igreja, como no exemplo dos filhos do sacerdote Eli, que profanavam o templo sem que o pai lhes repreendesse, pois ele honrava mais os filhos do que a Deus (1 Samuel 2:29-30; 1 Sm 3:13).

Penso que este problema tem sua raiz na família (1Tm 3:4-5; Tt :1:6) que se inicia na falta de harmonia conjugal (Gn 2:24) e o seu efeito contaminador (Hb 12:15) que a amargura exerce na vida dos filhos levando ao desenvolvimento da ira à rebeldia. A perspectiva da disciplina dos pais tem sido aplicada de forma simplista e cruel. “Aquele que sabe como ensinar um filho, não é competente para supervisionar a educação do filho, a menos que saiba também como treiná-lo” (H. Clay Trumbull). O treinamento de um filho é o modelar, o desenvolver e o controlar de suas faculdades, ao passo que o ensino de uma criança é a segurança de um conhecimento que está além de sua capacidade (PRIOLO, 2018, p.76).

Disciplinar filhos pode levar tempo. Um bom exemplo seria de um ferreiro e seu aprendiz. Antigamente o treinamento de um aprendiz durava cerca de sete anos. A primeira coisa que o artífice mestre fazia era explicar e mostrar o equipamento. Depois de uma série de observações, o artífice mestre permitia que o aprendiz o ajudasse em algumas etapas. O mestre o corrigia no ato, caso cometesse um erro, e, exigia que fizesse de novo até que acertasse. Por vezes, o mestre ficava atrás do aprendiz segurando e apoiando suas mãos, então juntos, o mestre demonstraria a exata posição dos seus movimentos. Após alguns exercícios de treinamento prático, o mestre permitia que o aprendiz tentasse executar o processo por conta própria. Então logo que o aprendiz cometesse algum erro, imediatamente seu mestre diria: “Não faça assim”. E novamente segurando a mão do aprendiz lhe mostraria como corrigir seu erro. Imagine como seria se o artífice mestre explicasse o procedimento uma vez, e no momento que o aprendiz cometesse o erro, o mestre dissesse: “Errado! Você será castigado, ou ficará sem jantar hoje. É bom que você melhore amanhã”.

“Disciplina bíblica evolve corrigir o comportamento errado por meio do exercício do comportamento certo, com a atitude certa, pela razão certa, até que o comportamento certo se torne habitual” (PRIOLO, 2018, p.83). O treinamento é um princípio bíblico. A palavra exercita-te (gumnazo – da qual tiramos as palavras ginástica e ginásio) significa treinar. Ela é encontrada nos versículos de 1 Tm 4:7 e Hb 5:14; 12:7-11.

Da mesma forma, o objetivo da disciplina eclesiástica não é se livrar de ninguém, pelo contrário, é reconciliação. “Todo crente em Jesus Cristo tem direito de ser disciplinado” (ADAMS, 2016, p.390). “A igreja mais excelente que você possa pertencer é a interessada em reconciliar incrédulos a um relacionamento correto com Deus e reconciliar cristãos a um relacionamento correto uns com os outros” (SHAW, 2017, p.40). “A disciplina começa pelas obrigações pastorais comuns de discipular o povo de Deus por meio da pregação, do ensino, do aconselhamento e do preparo dos santos” (POIRIER, 2011, p.224).

Muitos pais estão provocando seus filhos a ira ao discipliná-los de forma legalista, ou seja, elevando regras feitas pelos homens ao mesmo nível dos mandamentos de Deus estabelecidos nas Escrituras, e caso estes pais se tornem líderes eclesiásticos a doutrina da igreja correrá sérios riscos com o tipo de disciplina que eles poderão aplicar na vidas dos membros da congregação. Os pais devem apresentar de forma clara o que é Lei de Deus e o que é Lei da Casa para seus filhos. A Lei de Deus são leis orientadas pela Bíblia, que todos os homens estão obrigados a fazer porque Deus ordenou. Alguns exemplos seriam: ame ao Senhor teu Deus de todo coração e ame o teu próximo como a ti mesmo; não minta, não roube, não cobice e etc. Por outro lado, a Lei da Casa são regras derivadas da Bíblia, e devemos obedecê-las enquanto estivermos sob as autoridades estabelecidas por Deus em nossas vidas, neste caso os pais são autoridade na vida dos filhos, e alguns exemplos seriam: ir para cama às 20:30hs, arrumar a cama todas as manhãs, assistir somente uma hora de TV por dia, não namorar antes dos 15 anos e etc.
 
Quando estas regras não ficam claras, os filhos podem rejeitar o verdadeiro cristianismo, e o mesmo pode acontecer com os membros da congregação. Jesus combateu este mesmo tipo de legalismo com os líderes religiosos do seu tempo. Os escribas e fariseus se apegavam e propagavam regras ao ponto de se tornarem tão legais e obrigatórias quanto as Escrituras. Suas tradições eram feitas por mãos de homens, e eles ensinavam como se fossem obrigatórias como a Lei de Deus. Por não fazerem essa distinção entre regras de homens, dos mandamentos de Deus, eles foram chamados de hipócritas (Mt 15:8,9). Esse tipo de legalismo pode provocar ira nos filhos. Por exemplo, jamais diga a seu filho que: “É da vontade de Deus que você comece a namorar ao completar 15 anos”. Esta é uma regra da casa, e não um mandamento do Senhor. O mesmo exemplo se dá ao caso de tatuagem, corte de cabelo, brinco, música, bebidas e comidas. Explique para seus filhos que estas são regras da casa, sabendo que elas podem ser recorríveis, ou seja, apeláveis, porém, as regras de Deus, nunca podem ser recorridas. O mesmo deve acontecer no âmbito da igreja. 

O propósito deste artigo é o de demonstrar não somente a necessidade de ensinar tarefas relativamente simples e temporais, mas a necessidade de ensinar a aplicação da verdade eterna e o desenvolvimento da semelhança ao caráter de Cristo.


REFERENCIAL TEÓRICO

ADAMS, Jay. Teologia do Aconselhamento Cristão: Mais que redenção. Fortaleza: Peregrino, 2016.

PRIOLO, Lou. Filhos Irados: Uma abordagem Bíblica. 2. ed. São Paulo: NUTRA, 2018.

POIRIER, Alfred. O Pastor Pacificador: Um guia bíblico para a solução de conflitos na Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2011.

SHAW, Mark E. Intervenção Divina: Esperança e Socorro para famílias de dependentes químicos. Eusébio: Peregrino, 2017.

STETZER, ED. Plantando Igrejas Missionais: Como plantar igrejas bíblicas, saudáveis e relevantes a cultura. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015.

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. IV Vol. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Resultados não são indicadores verdadeiros de aprovação


Um problema perceptível na igreja é o foco nos resultados. Muitos tipos de entretenimento têm sido usados para atrair incrédulos para a igreja. Creem que se a programação tiver bastante atrativos conseguirão atrair pessoas para Cristo. São técnicas que mais satisfazem os incrédulos. Existem duas maneiras de se abordar a ética cristã. A primeira (Deontológica) é a partir dos seus princípios, e a segunda (Teleológica) visa os resultados.

Para os antinomistas (os sem lei) não há normas, ou seja, para eles não há padrões morais que possam julgar determinada ação como sendo moralmente errada. Os generalistas por sua vez, assumem uma abordagem teleológica, eles dizem que os fins justificam os meios. Um generalista pode idealizar fins absolutos, mas não regras absolutas. Para eles mentir nem sempre é errado, há situações que pelo “bem maior” é correto mentir. Para os situacionistas o que justifica uma ação como correta é o amor, ou seja, em nome do amor eles podem mentir, roubar ou até matar. Esse princípio ético é essencialmente pragmático. Para os situacionistas são as circunstâncias e as situações que definem as atitudes dos homens como corretas ou erradas. A teoria da ética do absolutismo não-conflitante, defende a verdade absoluta, e que não existe conflito de deveres. Para os adeptos dessa teoria, sempre haverá uma terceira possibilidade ou uma forma de obedecer a uma sem desobedecer a outra. Creem que Deus providenciará uma suposta providência, idealizada pelo homem, e não nas afirmações das Escrituras acerca das ações providenciais de Deus. Se a vontade preceptiva de Deus foi revelada nas Escrituras, creio que a maior dificuldade dessa teoria diz respeito à maneira como Deus age e sua providência. A teoria do absolutismo ideal trata dos conflitos de forma a vencer o maior mal, ou seja, deve-se quebrar aquela regra que trará menos desastres. Eles interpretam as circunstâncias e situações como os generalistas, porém, a escolha correta deve vir de uma análise de qual ação vai produzir um mal menor. Essa teoria tende ao legalismo. E por último, o hierarquismo procura solucionar problemas e acham uma forma de agir que não desobedeça a Deus. O problema é que em uma situação conflitante, quando é preciso escolher entre duas atitudes erradas, como dizer a verdade e levar alguém à morte e mentir e salvar uma vida, o valor à vida é o mais importante, então nesse caso a mentira seria certa, ou seja, contar a verdade é bom, mas não ao custo de uma vida. Nessa teoria é certo mentir para salvar uma vida. A decisão final cabe ao homem, e aí está o problema dessa última teoria.

CONCLUSÃO

Para o mundo, uma seleção de futebol pode receber a taça de campeã mundial, mesmo sabendo que para se chegar lá, um jogador fez um gol de mão deliberadamente. Para você pastor, plantador de igrejas e cristão, o seu troféu, só terá valor diante de Deus se for um obreiro aprovado. Você pode ter atingido excelentes metas e resultados, ter construído belas edificações, mas se no meio do processo, você fez um gol de mão, justificando que sua ação foi pelo “bem maior” da igreja, ou que sua ação foi em nome do “amor”, ou pelo “mal menor”, ainda há oportunidade de arrependimento e perdão em Cristo, e gostaria de te fazer as seguintes perguntas:

Quem vale mais, o homem ou seu criador? Qual é o real valor do homem pecador? Quanto vale o sacrifício de Cristo?

“Se procedemos corretamente, e se com todo o nosso coração nos esforçamos para cumprir com nossos deveres de ministros e servos do Senhor, ainda que não vejamos jamais nenhum resultado, receberemos a coroa”. (Charles Spurgeon – Os dois efeitos do evangelho - Sermão pregado na manhã de domingo de 17.05.1855).

O jovem rico

A conversa de Jesus com o jovem rico em Marcos 10:17-22, se dá num clima de admiração e respeito . Esse é o tipo de jovem que todo pastor g...